11 de fev. de 2026

Preludio

Ficarei em silencio até que soe o final dos meus tempos.

E sendo eu assim uma única, e por si só apenas divisível,

Não deixarei nem pedaços de mim, ou vestígios ou somas minhas espalhadas...

Passarei cega, surda e muda pelos campos ressecados destes morros,

Rios secos, grotas mortas e assombradas.

 

No prelúdio do desastre amplamente ignorado,

Soarei imperiosa e arrogante uma trombeta

E serei cavaleira de apocalipses insanos.

 

Aonde ainda houver águas agitadas,

Sem pés, sem sapatos, trilharei o obscuro caminho.

Em sentido contrario a loucura

De um dia quente e presente,

Em frente à Igreja,

Ao lado do banco,

Atrás da cascata,

No ponto que é livre pra vaga do idoso,

Em Cunha, minha gente, por tudo e por nada,

Meu fim da picada.

 

Cunha, 09.01.2026

 

10 de abr. de 2025

Paris Gare de Lyon

 

É muito de muita coisa, é gente por todo lado.

É muito de movimento e predatórios eventos.

Pedra, vidro, cimento,

É muito de sons e imagens e olhos e risos, caretas e gestos e eventos.

É muito de muito e a Terra não aguenta.

5 de ago. de 2023

 

Filosofando a esmo (I)

 Ainda temos medo, ainda temos medo.

Os sinais de desalento proliferam,

As salvações não se sustentam,

Milagres se esfacelam.

Quem me dera ser um ovo,

Perfeito por fora e por dentro,

Mas sou só relevos e massas e água e não sei modelar.

23 de out. de 2020

20 de abr. de 2019

Infinitos passos


Cento e cinquenta passos,
Pra frente e pra trás.
Duzentos passos para o lado,
Quem me fez não é quem me faz.

Trezentos passos perdidos,
Entre luzes e sombras no espaço.
São passos despercebidos,
Partículas, pedras, pedaços.

Infinitos são meus passos,
Onde piso a terra queima,
Passo sobre estilhaços.

Se a luz transporta o tempo
E o tempo compõe o universo,
Então quem é este inseto
Que voa sem deixar traço?

Grota do Junco, 2018

Para a Lia - I



Num buraquinho de chão
Morava um bichinho
Verde, rosa, amarelinho,
Olhinhos cor de açafrão.

Quando o bichinho nasceu,
Mundo ainda não havia.
Só um buraco no céu
E a chuvinha que caía.

Abril 2018