23 de out de 2011

Sprachübung für Bernadette

Por dentro do coco é o oco,
Por fora do coco é o espaço.
No oco do coco tem água,
Contra fraqueza e cansaço.

Na casca do coco grudada,
A carne branquinha e doce
Adora virar cocada.

Tem tudo que é bom
A casca do coco:
Tem fibra castanha,
Tem cuia perfeita.

O pelo do coco é o cabelo
Que sempre vira capacho.
Pisado muito por cima,
Não liga de estar por baixo.

Viena, outubro de 2011

16 de set de 2011

Luz noturna

Luziam na grota os pontos azuis
Amarelos/azuis
Amarelos/azuis dos vaga-lumes

A lua crescente
Cortada ao meio
Meio círculo, meia lua

A lua cortada ao meio
Vaga-lumes circulando
Em pontinhos de luz

Amarelos/azuis
Amarelos/azuis

Grota do Junco, janeiro 2010
Ferramentas
Com as mãos ela amassa
A massa do pão
E sonha.

Com o sonho ela caça
A doçura do céu
E dança.

Com a dança ela ultrapassa
A dureza de ser
E descansa.

Viena, agosto de 2011

27 de jul de 2011

Cada macaca no seu galho


Deitada na rede
E sonhando pra lua,
Conjuro uma imagem
Que deve ser sua.


Na sua galáxia
Tão distante e fria,
Ocupo um espaço
Na periferia.


Poeira de estrela,
Grãozinho de areia,
Seu sangue não corre
Nesta minha veia
E a música densa
Do seu universo
É forte demais
Pro meu pobre verso.
Grota do Junco, junho de 2010

13 de jul de 2011

Fragilidade



A menina pisou no passeio,
Um carro dobrou a esquina.
O sinal estava no meio,
A moça tocou a buzina.


Esperta que era a menina,
Olhou pensou e parou.
A vida é bem pequenina,
Um sopro, um passo e acabou.

As frágeis precisam parar,
As fortes ocupam o espaço.
Só que de tanto apanhar,
As fracas se tornam de aço.


Cunha, março de 2011
Esperando
Aqui estou,
Esperando.

Acontece sempre,
Que fico assim
Esperando:

Que as pessoas me conheçam
Que o sinal se abra
Que o carro fique pronto
Que a amiga chegue
Que a verdade seja dita
Que a verdade seja não dita
Que me entendam
Que quem amo me ame
Que o banco abra
Que o dinheiro chegue
Que o sinal se feche
Que a alegria aconteça
Que eu finalmente, de tanto esperar,
Desapareça

Sampa, 06.11.2009

8 de jun de 2011

Pernilonga picante



A pernilonga picou meu pescoço,
Dei tapa ligeiro, mas ela sumiu.
Ficou de lembrança um baita caroço.


Zuniu, sumiu no espaço
A pernilonga que não matei.
A caça ao bicho me deu um cansaço...


Não posso dormir,
Lá vem uma outra me atazanar.
Melhor nem sentir!


Grota do Junco, Fevereiro de 2010

22 de mai de 2011

Progressão Binária


O país é uma potência
Sim ou não
Progrediu com a violência
Sim ou não
Pior mesmo é no Japão
Sim ou não
Com a contaminação
Sim ou não
Morrem no oriente médio
Sim ou não
Eu aqui morro de tédio
Sim ou não
To ganhando muita grana
Sim ou não
Pra comprar carro bacana
Sim ou não
Já não fumo mais cigarro
Sim ou não
Como jovens no meu carro
Sim ou não
Meninas somem na estrada
Sim ou não
Gays são mortos na calçada
Sim ou não
Isto sim é que é progresso
Sim ou não
Ou seria retrocesso?
(Sim ou não?)

Cunha, abril de 2011



22 de fev de 2011

O burrinho Moreno


Num dia pequeno nasceu o burrinho
Que se chamava Moreno.
Nasceu como o dia,
Pequeno.


Perninhas curtas, fininhas,
Pra que serviria o Moreno?


Na roça cresceu o burrinho,
No lombo a cangalha, o jacá.
Miudinho era o Moreno.


Milho, madeira, palanque de cerca,
Leite e queijo, roupa suja,
Pinhas, pinhas e mais pinhas,
Carregado ia e vinha.


Esperto e desconfiado,
Tinha lá suas manias.
Maria levava o Moreno,
Moreno levava a Maria.


Maus tratos nas mãos dos outros,
Chingamento e pancadaria,
Só a Maria não batia.
Falava a Maria com ele
E a Maria ele entendia.


Morreu sozinho no mato:
Foi de dor, foi de cansaço?
Foi de noite?
Foi de dia?


Pro céu dos burros se foi,
Lá está a carregar
A lua e as estrelinhas.


Morreu o Moreno, morreu,
O burrinho que sabia.

Grota do Junco. Fevereiro de 2011