29 de jan. de 2014

Curriculum Vitae



Já me fiz muitas perguntas,
Já me fabriquei respostas.

Entreti gente bonita,

Pra outras virei as costas.



Passei tempo com os ricos,

De meus pobres nem lembrança.

Sonhando vida infinita,

Vou morrer sendo criança.



Feri gente, bicho e planta,

Amassei graminha nova.

Fiz dinheiro à custa tanta,

Versos bobos, rimas obvias.



Igual larva no casulo

Me enrosco e fico escondida.

Um sobressalto, um pulo,

E lá se foi minha vida.

Grota do Junco, Janeiro de 2014

Gente


Gente vem, janta, engorda, estufa a pança.

Gente não fuma, não bebe, não transa – come;

Sem ter fome.



Gente possui belíssimos bens,

Gente acumula por puro prazer.

Gente consome, engole, mastiga, vomita;

E dança.



Grota do junco, julho de 2010

10 de mar. de 2013

O medo e a vida




“A vida começa”,
Dizia o rico profeta
“Aonde termina o medo”
- assim ele nos dizia.


Seguindo palavras tão sabias
E tendo um medo profundo,
Saí procurando a vida
E dei de cara com o mundo.


O mundo que encontrei,
Aquele no qual eu vivia,
Era regido por leis,
Das quais eu pouco sabia:


A lei do mais forte é eterna,
A lei da mentira é constante.
A lei que meu mundo governa
Pro meu medo é o bastante.


Então eu me disse, perdida:
Meu medo, qual é seu poder?
Se ele é o oposto da vida,
Somos mortos sem saber.


Os bichos que andam no mato
Se escondem e uivam de medo.
Crianças que acordam no escuro,
De medo abrem o berreiro.
Se tenho um amor profundo,
Do seu fim eu tenho medo.
Se o corpo me dói um pouquinho
O medo da morte me come.
Se a rua que ando é escura,
De medo apresso meu passo,
Se a porta me fecham na cara,
Meu medo me ajuda arrombá-la.


E aqui continuo pensando
Que vida é essa que me veio:
Cheia de medo  - e entretanto -
Que bela vida a que tenho!

Grota do Junco, Março de 2013

30 de ago. de 2012

Naquele dia


E foi no dia mais importante para ela,
Que ela transformou o dia em dia.
E como se ainda não soubesse o bastante,
Conseguiu sair pela tangente e deixar tudo de lado.

Sem saber por que andava tão somente
Na decidida luz do aclamado dia,
Saiu e caiu no paralelo do poente –
Um passo adiante e outro inacabado.

Sem saber se nesse dia o importante
Era o segredo do futuro ou o medo do passado,
Saiu do quarto, atravessou a sala e a cozinha,
E caiu no claro do sol ensanguentado.

E nesse dia importante,
Sem medo e sem saber o que fazia,
Falou e fez o que ninguém jamais a consentia
E pensou: mais um sonho realizado...

Viena, agosto de 2012

22 de jun. de 2012

A casa está fechada

A casa está fechada.
Tem parede, tem janela, tem porta e tem saída.
Só não tem mais a entrada,
Porque a casa está fechada.

A casa está fechada.
Tem gente sentada à mesa, tem crianças na caminha.
Só não tem mais alimento,
A casa secou por dentro.

A casa está fechada.
Tem sofá, tem abajur, tem tapetes pelo chão.
Só não tem nenhum calor,
A casa encheu de bolor.

A casa está fechada.
Tem piso, forro e chaleira no fogão.
Só não tem o que beber,
A casa está a morrer.


Grota do junco, abril de 2011

13 de abr. de 2012

Cinco linhas

Fiz um poema de cinco linhas:
A linha primeira era sua,
A linha segunda era minha.


Fiz um poema de cinco linhas:
A linha terceira ia embora,
A quarta linha só vinha.


Fiz um poema de cinco linhas:
Quatro eram pra você,
Só a quinta era sozinha.


Cordilheira dos Andes, Abril de 2012

20 de jan. de 2012

O fundo do poço

Qual é o tamanho do fundo do poço?
É um tamanho colosso!

Qual é a distância da boca ao fundo?
Um mundo, um mundo!

Estando no fundo eu me reconheço?
Do fim ao começo!
Se é tão escuro, que posso enxergar?
O que não se vê com o olhar!

Se grito bem alto, alguém me responde?
O eco – já sabes de onde!

E nas paredes, tem corda ou escada?
São lisas, vazias, sem nada!

Quem pode dizer se este poço existe?
Só gente ferida, sozinha e triste!


Grota do Junco, janeiro de 2012