Tia Mariana tem uma ferida.
É na perna, é feia, é profunda, é doída.
E ela anda ainda: pequena, franzina, um pouco encolhida.
À noite enrola a gaze pra proteger a ferida.
De dia me mostra a perna azulada, a pele um agreste ressequido.
Enquanto ela despe a ferida, meu corpo se assusta.
De dentro de mim vem o enjôo, o pânico, a ira.
Aquele buraco na perna é como uma boca que suga,
O sexo que morre, o fundo do abismo.
Cerro os dentes, engulo a saliva e olho:
No fundo do poço, na perna magrinha
A ferida escura, o Alien da roça, grudado na pele,
Cresce, se alastra e se alimenta de Tia Mariana.
Paraibuna, Maio de 2010
29 de mai. de 2010
15 de mai. de 2010
Estúpida e arrogante
Estúpida e arrogante,
Andou sobre mim
Com patas de elefante.
Bonita e maldosa,
Contou sobre mim
Um monte de prosa.
Maluca e sem jeito,
Encontrou em mim
O alvo perfeito.
Mulher infeliz,
Abusou de mim,
Escapei por um triz.
Viena, julho 2009
Andou sobre mim
Com patas de elefante.
Bonita e maldosa,
Contou sobre mim
Um monte de prosa.
Maluca e sem jeito,
Encontrou em mim
O alvo perfeito.
Mulher infeliz,
Abusou de mim,
Escapei por um triz.
Viena, julho 2009
23 de abr. de 2010
A louca
Nos dias de sol ela lavava roupa,
Nos dias de chuva cuidava da horta,
Nas noites de frio sonhava com a outra.
Era louca e vivia bem,
Era a louca.
Nas noites de lua urrava de dor,
Nas trilhas escuras perdia o caminho.
Era a louca,
Era a outra.
Grota do Junco, fevereiro de 2010
Nos dias de chuva cuidava da horta,
Nas noites de frio sonhava com a outra.
Era louca e vivia bem,
Era a louca.
Nas noites de lua urrava de dor,
Nas trilhas escuras perdia o caminho.
Era a louca,
Era a outra.
Grota do Junco, fevereiro de 2010
9 de abr. de 2010
Meditação – o verbo
Eu medito,
Tu meditas
Ela medita.
Nós meditamos,
Elas meditam.
Eu me ditava,
Tu te ditavas,
Ela se ditava.
Nós nos ditávamos
E éramos felizes.
Elas nos ditaram
E assim nos calaram.
Cunha, abril de 2010
Tu meditas
Ela medita.
Nós meditamos,
Elas meditam.
Eu me ditava,
Tu te ditavas,
Ela se ditava.
Nós nos ditávamos
E éramos felizes.
Elas nos ditaram
E assim nos calaram.
Cunha, abril de 2010
29 de mar. de 2010
Indecisão
Se estou com esta,
Quero a outra.
Se me dou bem com esta,
Dou-me todinha à outra.
Se falo muito com esta,
Me calo pasmada com a outra.
Se como delícias com esta,
Me como todinha com a outra.
Se olho nos olhos desta,
Me perco nos olhos da outra.
Se sonho coisas com esta,
Me enrosco nos sonhos da outra.
Se faço um trato com esta,
Desfaço tudo com a outra.
Se levo a vida com esta,
A vida me leva pra outra.
Grota do Junco, março de 2010
Quero a outra.
Se me dou bem com esta,
Dou-me todinha à outra.
Se falo muito com esta,
Me calo pasmada com a outra.
Se como delícias com esta,
Me como todinha com a outra.
Se olho nos olhos desta,
Me perco nos olhos da outra.
Se sonho coisas com esta,
Me enrosco nos sonhos da outra.
Se faço um trato com esta,
Desfaço tudo com a outra.
Se levo a vida com esta,
A vida me leva pra outra.
Grota do Junco, março de 2010
25 de mar. de 2010
Silencio
Silencio doce desce sobre o mundo
Quando - nesta lingua em que falo -
Trago de dentro um suspiro fundo
E compreendida me calo.
O vôo da voz cortado,
Restam os ruídos soltos:
O grito no lugar errado,
O sussurro saindo torto.
Silencio doce desce sobre o mundo
Quando o dia ainda escuro
E o som dos bichos não veio,
E o despertar é tão duro.
Grota do Junco, outubro 2009
Quando - nesta lingua em que falo -
Trago de dentro um suspiro fundo
E compreendida me calo.
O vôo da voz cortado,
Restam os ruídos soltos:
O grito no lugar errado,
O sussurro saindo torto.
Silencio doce desce sobre o mundo
Quando o dia ainda escuro
E o som dos bichos não veio,
E o despertar é tão duro.
Grota do Junco, outubro 2009
1 de mar. de 2010
Prece
Ai, Senhor,
Que aqui me vês -
Ou não?
Por crer não cortei o cabelo,
Por crer usei saia comprida.
Por crer atei bem o novelo
Que prende em mim minha vida.
Ai, Senhor!
Se não fores,
O que será de mim?
Terminal Rodoviário do Tietê, fevereiro 2010
Que aqui me vês -
Ou não?
Por crer não cortei o cabelo,
Por crer usei saia comprida.
Por crer atei bem o novelo
Que prende em mim minha vida.
Ai, Senhor!
Se não fores,
O que será de mim?
Terminal Rodoviário do Tietê, fevereiro 2010
O que é que Cunha precisa?
O que é que Cunha precisa?
Criar vergonha e suar a camisa.
O que é que Cunha quer?
Falar de homem e transar com mulher.
O que é que Cunha sente?
Falta de idéias e a cabeça quente.
O que é que Cunha seria?
Um mar praguejado de calmaria.
O que Cunha precisa
É cair no samba,
levantar poeira,
deitar pra rolar
e não reclamar.
Grota do Junco, janeiro de 2010
Criar vergonha e suar a camisa.
O que é que Cunha quer?
Falar de homem e transar com mulher.
O que é que Cunha sente?
Falta de idéias e a cabeça quente.
O que é que Cunha seria?
Um mar praguejado de calmaria.
O que Cunha precisa
É cair no samba,
levantar poeira,
deitar pra rolar
e não reclamar.
Grota do Junco, janeiro de 2010
Marcadores:
o que é que cunha precisa?
Cinco centavos
O homem passando derrubou a moeda.
Era tiquinha, a moedinha,
Nem dez centavos valia.
Avisar, avisei:
“Olha, moço, derrubou a moeda!”
De vergonha talvez de ir-se embora
Sem ligar pra coisa tão pouquinha,
O moço voltou e falou:
“Opa, moedinha danada, vem cá!”
E assim ela foi, carregada pela mão do moço.
Só cinco centavos valia, a moedinha.
Terminal Rodoviário do Tietê, fevereiro 2010
Era tiquinha, a moedinha,
Nem dez centavos valia.
Avisar, avisei:
“Olha, moço, derrubou a moeda!”
De vergonha talvez de ir-se embora
Sem ligar pra coisa tão pouquinha,
O moço voltou e falou:
“Opa, moedinha danada, vem cá!”
E assim ela foi, carregada pela mão do moço.
Só cinco centavos valia, a moedinha.
Terminal Rodoviário do Tietê, fevereiro 2010
A crente e a freirinha
A freirinha de cinza
Senta-se ao lado da crente
De olhos verdes e cabelos longos,
Amarrados.
O rosário pendurado no peito da freirinha,
Lá fica, parado.
A crente provoca a freirinha
Citando Herodes na bíblia,
A freirinha quieta.
Religião demais, o santo desconfia.
Terminal Rodoviário do Tietê, fev. 2010
Senta-se ao lado da crente
De olhos verdes e cabelos longos,
Amarrados.
O rosário pendurado no peito da freirinha,
Lá fica, parado.
A crente provoca a freirinha
Citando Herodes na bíblia,
A freirinha quieta.
Religião demais, o santo desconfia.
Terminal Rodoviário do Tietê, fev. 2010
29 de jan. de 2010
Aterrisagem
Aqui do céu
Tudo é plano – colchão de nuvens,
Luz do sol avermelhando o horizonte.
De repente o mergulho, a visão da terra:
Tapetes verdes, quadriculados, habitações,
Os rios, as estradas, os carros,
A vida humana pulsando,
Seguindo seu próprio ritmo.
Aqui do céu
A bordo do Boeing -
Vejo a Dutra rolar lá embaixo.
Tráfego intenso, formigas correndo,
Seguindo as setas, os rumos:
Direção norte, direção sul,
Qual a diferença?
Realidade engolindo sonhos
Aterrisagem
Recomeço
Voando sobre São Paulo, setembro 2009
Tudo é plano – colchão de nuvens,
Luz do sol avermelhando o horizonte.
De repente o mergulho, a visão da terra:
Tapetes verdes, quadriculados, habitações,
Os rios, as estradas, os carros,
A vida humana pulsando,
Seguindo seu próprio ritmo.
Aqui do céu
A bordo do Boeing -
Vejo a Dutra rolar lá embaixo.
Tráfego intenso, formigas correndo,
Seguindo as setas, os rumos:
Direção norte, direção sul,
Qual a diferença?
Realidade engolindo sonhos
Aterrisagem
Recomeço
Voando sobre São Paulo, setembro 2009
13 de jan. de 2010
Enchente
A água caiu no bairro do Paraibuna.
Era o fim do ano e o começo do ano.
A água não sabia quando parar:
No fim, ou no começo?
Confusa, continuou a cair.
Com ela caíram as pontes, os barrancos e as casas que estavam em baixo dos barrancos.
Nativos ficaram olhando, recolhendo a mobília, mudando, contando.
Forasteiros pularam pra dentro dos 4x4 e se foram.
O bairro está quieto.
Barulhinho de uma moto, um fusquinha.
Vozes na estrada, cascos de cavalo.
Cadê os carrões?
Bairro do Paraibuna 31.12. 2009/01.01.2010
Era o fim do ano e o começo do ano.
A água não sabia quando parar:
No fim, ou no começo?
Confusa, continuou a cair.
Com ela caíram as pontes, os barrancos e as casas que estavam em baixo dos barrancos.
Nativos ficaram olhando, recolhendo a mobília, mudando, contando.
Forasteiros pularam pra dentro dos 4x4 e se foram.
O bairro está quieto.
Barulhinho de uma moto, um fusquinha.
Vozes na estrada, cascos de cavalo.
Cadê os carrões?
Bairro do Paraibuna 31.12. 2009/01.01.2010
Cunha Grisalha
Cunha às cinco e meia da tarde,
Um espichar de luzes e cores,
Cidade-mistério – olhando um futuro distante.
Dulce Maia!
Quantas Dulces seremos?
Já a cidade está salpicada de cabelos brancos.
Cunha, Janeiro de 2010
Um espichar de luzes e cores,
Cidade-mistério – olhando um futuro distante.
Dulce Maia!
Quantas Dulces seremos?
Já a cidade está salpicada de cabelos brancos.
Cunha, Janeiro de 2010
A sombra
Eu sonho,
E no meu sonho
Uma sombra estranha
Envolta em brumas, tortas raízes,
Em negra lama se esconde.
É um vulto que desliza,
Um sopro, o roçar da brisa
No meio da noite escura.
Grota do junco, 2008
E no meu sonho
Uma sombra estranha
Envolta em brumas, tortas raízes,
Em negra lama se esconde.
É um vulto que desliza,
Um sopro, o roçar da brisa
No meio da noite escura.
Grota do junco, 2008
26 de dez. de 2009
Capital
Tem sol e chuva em São Paulo.
Tem feira livre nas ruas
E um povo que não conheço.
Tem barulho e tem luar,
Tem vento assoviando entre os prédios,
Tem muita gente comendo
E bebendo muita cerveja,
Mas não podem mais fumar –
O que é uma pena.
Gosto de cheiros em geral.
Sampa, novembro de 2009
Tem feira livre nas ruas
E um povo que não conheço.
Tem barulho e tem luar,
Tem vento assoviando entre os prédios,
Tem muita gente comendo
E bebendo muita cerveja,
Mas não podem mais fumar –
O que é uma pena.
Gosto de cheiros em geral.
Sampa, novembro de 2009
18 de dez. de 2009
Sem braço
A velhinha de branco caminha na praça
E só tem um braço.
Onde o outro seria, esvoaça a manga da blusa,
Despregada.
A ausência do braço deu à velhinha
Um andarzinho torto, envergado.
Anda tortinha a velhinha, olhando para o lado,
Como se estivesse à procura
Do braço cortado.
A praça encosta-se à porta da igreja
E ali fica, à espera de quem passa.
No céu, onde o sol seria,
Voam nuvens escuras, carregadas.
A manga leve e vazia,
Passinhos miúdos, olhar de cansaço,
Atravessa a praça a velhinha
Que ainda tem o outro braço.
Cunha, novembro 2009
A velhinha de branco caminha na praça
E só tem um braço.
Onde o outro seria, esvoaça a manga da blusa,
Despregada.
A ausência do braço deu à velhinha
Um andarzinho torto, envergado.
Anda tortinha a velhinha, olhando para o lado,
Como se estivesse à procura
Do braço cortado.
A praça encosta-se à porta da igreja
E ali fica, à espera de quem passa.
No céu, onde o sol seria,
Voam nuvens escuras, carregadas.
A manga leve e vazia,
Passinhos miúdos, olhar de cansaço,
Atravessa a praça a velhinha
Que ainda tem o outro braço.
Cunha, novembro 2009
28 de nov. de 2009
Vôo livre
A ave que não sabia
Em que galho pousaria,
Ficou no céu a voar.
O corpinho tão pequeno,
Umas asinhas assim -
Seguindo um vento ameno,
O voar não tinha fim.
A noite, porém, foi chegando
E do luar já se via
A luz se esparramando.
Avezinha, avezinha,
Que nenhum galho queria.
Pousou no céu que se abria
Pra recolher sua vidinha.
novembro 2009, para Diana Voigt
in memoriam
A ave que não sabia
Em que galho pousaria,
Ficou no céu a voar.
O corpinho tão pequeno,
Umas asinhas assim -
Seguindo um vento ameno,
O voar não tinha fim.
A noite, porém, foi chegando
E do luar já se via
A luz se esparramando.
Avezinha, avezinha,
Que nenhum galho queria.
Pousou no céu que se abria
Pra recolher sua vidinha.
novembro 2009, para Diana Voigt
in memoriam
24 de out. de 2009
Feijoada de sábado
Hoje, de relance, vi o seu rosto
Naquele restaurante de esquina,
Muito badalado.
E você olhando de lado,
Ah, olhando de lado...
Foi apenas um instante
A visão do restaurante
Lotado,
Ah, muito lotado.
Se eu ficasse ali parada
Prá ver se você me via,
Um cardápio alguém traria.
E eu que fome não tinha,
Ia pedir feijoada,
Ah, ia pedir feijoada.
Ia ficar bem sem graça,
Me enroscar no tira-gosto,
Ler o menu todo errado.
(E o seu gosto é delicado,
Ah, ele é muito delicado.)
Só que passei ligeirinha,
E o restaurante famoso
Que nem feijoada tinha,
Engoliu na sombra o seu rosto
E a vergonha que era minha.
Cunha, 24.10.2009
Naquele restaurante de esquina,
Muito badalado.
E você olhando de lado,
Ah, olhando de lado...
Foi apenas um instante
A visão do restaurante
Lotado,
Ah, muito lotado.
Se eu ficasse ali parada
Prá ver se você me via,
Um cardápio alguém traria.
E eu que fome não tinha,
Ia pedir feijoada,
Ah, ia pedir feijoada.
Ia ficar bem sem graça,
Me enroscar no tira-gosto,
Ler o menu todo errado.
(E o seu gosto é delicado,
Ah, ele é muito delicado.)
Só que passei ligeirinha,
E o restaurante famoso
Que nem feijoada tinha,
Engoliu na sombra o seu rosto
E a vergonha que era minha.
Cunha, 24.10.2009
26 de ago. de 2009

Curva de Rio
O bairro do Paraibuna
É igual curva de rio
A tranqueira aqui se encalha,
Livrar dela é um desafio.
Gente cheia de malicia,
Contando papo furado,
Ou fugindo da policia
Ou de amor desenganado,
Gente sofrendo do juízo,
Todos param por aquí,
Em busca do paraíso
Que eu achei e já perdi.
Gente com o pé na cova
Sem ter onde cair morto,
Chega aqui e já é prova
Que o direito acaba torto.
Gente que se atrapalha
E arma encrenca demais,
Que só é fogo de palha,
Um pé na frente e outro atrás.
Gente falando grosso,
Contando papo a valer
Com o laço no pescoço
Vive no bar a beber.
Sai assim cruzando as pernas,
Errando o caminho da casa.
Se mete em muitas badernas,
É passarinho sem asa.
Ir se embora não tem jeito
Se mudar não dá mais pé
Só dá pra esquentar o peito
Bebendo pinga com “mé”.
O bairro do Paraibuna
É igual curva de rio
A tranqueira aqui se encalha,
Livrar dela é um desafio.
Gente cheia de malicia,
Contando papo furado,
Ou fugindo da policia
Ou de amor desenganado,
Gente sofrendo do juízo,
Todos param por aquí,
Em busca do paraíso
Que eu achei e já perdi.
Gente com o pé na cova
Sem ter onde cair morto,
Chega aqui e já é prova
Que o direito acaba torto.
Gente que se atrapalha
E arma encrenca demais,
Que só é fogo de palha,
Um pé na frente e outro atrás.
Gente falando grosso,
Contando papo a valer
Com o laço no pescoço
Vive no bar a beber.
Sai assim cruzando as pernas,
Errando o caminho da casa.
Se mete em muitas badernas,
É passarinho sem asa.
Ir se embora não tem jeito
Se mudar não dá mais pé
Só dá pra esquentar o peito
Bebendo pinga com “mé”.
Fevereiro de 2007
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