22 de jun. de 2012

A casa está fechada

A casa está fechada.
Tem parede, tem janela, tem porta e tem saída.
Só não tem mais a entrada,
Porque a casa está fechada.

A casa está fechada.
Tem gente sentada à mesa, tem crianças na caminha.
Só não tem mais alimento,
A casa secou por dentro.

A casa está fechada.
Tem sofá, tem abajur, tem tapetes pelo chão.
Só não tem nenhum calor,
A casa encheu de bolor.

A casa está fechada.
Tem piso, forro e chaleira no fogão.
Só não tem o que beber,
A casa está a morrer.


Grota do junco, abril de 2011

13 de abr. de 2012

Cinco linhas

Fiz um poema de cinco linhas:
A linha primeira era sua,
A linha segunda era minha.


Fiz um poema de cinco linhas:
A linha terceira ia embora,
A quarta linha só vinha.


Fiz um poema de cinco linhas:
Quatro eram pra você,
Só a quinta era sozinha.


Cordilheira dos Andes, Abril de 2012

20 de jan. de 2012

O fundo do poço

Qual é o tamanho do fundo do poço?
É um tamanho colosso!

Qual é a distância da boca ao fundo?
Um mundo, um mundo!

Estando no fundo eu me reconheço?
Do fim ao começo!
Se é tão escuro, que posso enxergar?
O que não se vê com o olhar!

Se grito bem alto, alguém me responde?
O eco – já sabes de onde!

E nas paredes, tem corda ou escada?
São lisas, vazias, sem nada!

Quem pode dizer se este poço existe?
Só gente ferida, sozinha e triste!


Grota do Junco, janeiro de 2012

23 de out. de 2011

O Coco - Sprachübung für Bernadette

Por dentro do coco é o oco,
Por fora do coco é o espaço.
No oco do coco tem água,
Contra fraqueza e cansaço.

Na casca do coco grudada,
A carne branquinha e doce
Adora virar cocada.

Tem tudo que é bom
A casca do coco:
Tem fibra castanha,
Tem cuia perfeita.

A fibra do coco é o cabelo
Que sempre vira capacho.
Pisado muito por cima,
Não liga de estar por baixo.

Viena, outubro de 2011

16 de set. de 2011

Luz noturna

Luziam na grota os pontos azuis
Amarelos/azuis
Amarelos/azuis dos vaga-lumes

A lua crescente
Cortada ao meio
Meio círculo, meia lua

A lua cortada ao meio
Vaga-lumes circulando
Em pontinhos de luz

Amarelos/azuis
Amarelos/azuis

Grota do Junco, janeiro 2010

Ferramentas

Com as mãos ela amassa 
A massa do pão  
E sonha.

Com o sonho ela caça
A doçura do céu
E dança.


Com a dança ela ultrapassa
A dureza de ser
E descansa.


Viena, agosto de 2011

27 de jul. de 2011

Cada macaca no seu galho

Deitada na rede
E sonhando pra lua,
Conjuro uma imagem
Que deve ser sua.


Na sua galáxia
Tão distante e fria,
Ocupo um espaço
Na periferia.


Poeira de estrela,
Grãozinho de areia,
Seu sangue não corre
Nesta minha veia
E a música densa
Do seu universo
É forte demais
Pro meu pobre verso.

Grota do Junco, junho de 2010

13 de jul. de 2011

Fragilidade

A menina pisou no passeio,
Um carro dobrou a esquina.
O sinal estava no meio,
A moça tocou a buzina.


Esperta que era a menina,
Olhou pensou e parou.
A vida é bem pequenina,
Um sopro, um passo e acabou.

As frágeis precisam parar,
As fortes ocupam o espaço.
Só que de tanto apanhar,
As fracas se tornam de aço.


Cunha, março de 2011

Esperando

Aqui estou,
Esperando.

Acontece sempre,
Que fico assim
Esperando:

Que as pessoas me conheçam
Que o sinal se abra
Que o carro fique pronto
Que a amiga chegue
Que a verdade seja dita
Que a verdade seja não dita
Que me entendam
Que quem amo me ame
Que o banco abra
Que o dinheiro chegue
Que o sinal se feche
Que a alegria aconteça
Que eu finalmente, de tanto esperar,
Desapareça

Sampa, 06.11.2009

8 de jun. de 2011

Pernilonga picante

A pernilonga picou meu pescoço,
Dei tapa ligeiro, mas ela sumiu.
Ficou de lembrança um baita caroço.


Zuniu, sumiu no espaço
A pernilonga que não matei.
A caça ao bicho me deu um cansaço...


Não posso dormir,
Lá vem uma outra me atazanar.
Melhor nem sentir!


Grota do Junco, Fevereiro de 2010

22 de mai. de 2011

Progressão Binária

O país é uma potência
Sim ou não
Progrediu com a violência
Sim ou não
Pior mesmo é no Japão
Sim ou não
Com a contaminação
Sim ou não
Morrem no oriente médio
Sim ou não
Eu aqui morro de tédio
Sim ou não
To ganhando muita grana
Sim ou não
Pra comprar carro bacana
Sim ou não
Já não fumo mais cigarro
Sim ou não
Como jovens no meu carro
Sim ou não
Meninas somem na estrada
Sim ou não
Gays são mortos na calçada
Sim ou não
Isto sim é que é progresso
Sim ou não
Ou seria retrocesso?
(Sim ou não?)

Cunha, abril de 2011



22 de fev. de 2011

O burrinho Moreno

Num dia pequeno nasceu o burrinho
Que se chamava Moreno.
Nasceu como o dia,
Pequeno.


Perninhas curtas, fininhas,
Pra que serviria o Moreno?


Na roça cresceu o burrinho,
No lombo a cangalha, o jacá.
Miudinho era o Moreno.


Milho, madeira, palanque de cerca,
Leite e queijo, roupa suja,
Pinhas, pinhas e mais pinhas,
Carregado ia e vinha.


Esperto e desconfiado,
Tinha lá suas manias.
Maria levava o Moreno,
Moreno levava a Maria.


Maus tratos nas mãos dos outros,
Chingamento e pancadaria,
Só a Maria não batia.
Falava a Maria com ele
E a Maria ele entendia.


Morreu sozinho no mato:
Foi de dor, foi de cansaço?
Foi de noite?
Foi de dia?


Pro céu dos burros se foi,
Lá está a carregar
A lua e as estrelinhas.


Morreu o Moreno, morreu,
O burrinho que sabia.

Grota do Junco. Fevereiro de 2011

28 de out. de 2010

Natureza Morta

O elo que um dia
me unia ao universo,
sem que eu notasse ou quisesse
por minha mão se rompeu.


Então inventei
a palavra natureza:
fora de mim,
de mim mesma separada.


Aprendi a me dar preço,
aprendi a quebrar laços,
aprendi a ver só o avesso,
aprendi a contar um a um os meus pedaços.


A soma porem saiu torta,
virou por milagre um só retrato:
natureza minha,
natureza morta.


Viena, outubro de 2010

22 de set. de 2010

Retrato da seca

Movendo-se lentamente morro acima,
Pastam a vaca, o cavalo e o boi.
Passam pássaros sobre árvores,
Correm cobras na grama seca.


A cor do pasto amarela,
Patas se arrastam cansadas.
Água lá embaixo tiquinha,
Rio que era sumiu.


O céu tão azul, lindo, lindo,
O sol neste inverno impera.
Fogo no pasto começa,
Fogo na mata se alastra.


Gente correndo, batendo,
Roçando, cortando, suando,
O fogo nos olhos vermelhos,
Cansaço nas pernas,
Feridas as mãos.

Retrato da seca na roça.

Entre Cunha e Viena, setembro de 2010

11 de set. de 2010

O enterro

O enterro passou atrapalhando o trânsito,
                              Ave Maria cheia de graça
Três horas da tarde, na hora do jogo.
                              O senhor é convosco
Parei o meu carro bufando de raiva,
                              Bendita sois voz entre as mulheres
Pensando na perda de muitos minutos.
                              Bendito o fruto do vosso ventre
Olhei o cortejo descendo a avenida,
                              Jesus!
Caixão estreitinho, coroa barata.
                              Santa Maria mãe de Deus
Seguindo a pé um miúdo de gente,
                              Rogai por nós pecadoras
Solenes sapatos raspando o asfalto.
                              Agora e na hora da nossa morte
Sem pompas, sem glórias, travando o caminho.
                              Amen!
E eu apressada!
E eu apressada.

Cunha, fevereiro de 2010

7 de ago. de 2010

Poeminha pra esquentá o friu

Cunha está cheia de carros de fora,
Vamos ganhar nossa grana agora!


Os carros de fora atravancam a praça,
A gente de Cunha olha a cena, e passa.

Restôs e bistrôs se alastram ao léu
Os preços sobem e alcançam o céu.


Cinema já temos, lindo de morrer,
Já vem programado pra ninguém ver.


Que bom, que bom, o cult chegou,
É a nova cultura que o vento levou.

Cunha, 07.08.2010

31 de jul. de 2010

Ansiedade

O coração desgoverna as batidas.
Bumba no peito, meu boi!
Bum bum cabum, bum cabum, cabum bum bum, pacabum.

A hora não passa, empaca o relógio.
Do quarto pra sala, da sala pro quarto,
Pem, pem, bate o sangue no miolo.
Monjolo incessante, nem milho, nem café.
Veloz corre o pensamento, fagulhas.
Fogo bravo, lenha seca, labaredas.

E o sossego dos outros!
A lentidão!
Lesmas escorregando no assoalho liso.
A vida parou?
Ou já passou?


Grota do Junco, Abril de 2010

29 de mai. de 2010

A ferida

Tia Mariana tem uma ferida.
É na perna, é feia, é profunda, é doída.
E ela anda ainda: pequena, franzina, um pouco encolhida.


À noite enrola a gaze pra proteger a ferida.
De dia me mostra a perna azulada, a pele um agreste ressequido.


Enquanto ela despe a ferida, meu corpo se assusta.
De dentro de mim vem o enjôo, o pânico, a ira.
Aquele buraco na perna é como uma boca que suga,
O sexo que morre, o fundo do abismo.


Cerro os dentes, engulo a saliva e olho:
No fundo do poço, na perna magrinha
A ferida escura, o Alien da roça, grudado na pele,
Cresce, se alastra e se alimenta de Tia Mariana.

Paraibuna, Maio de 2010

15 de mai. de 2010

Estúpida e arrogante

 Estúpida e arrogante,
Andou sobre mim
Com patas de elefante.


Bonita e maldosa,
Contou sobre mim
Um monte de prosa.

Maluca e sem jeito,
Encontrou em mim
O alvo perfeito.


Mulher infeliz,
Abusou de mim,
Escapei por um triz.

Viena, julho 2009

23 de abr. de 2010

A louca

Nos dias de sol ela lavava roupa,
Nos dias de chuva cuidava da horta,
Nas noites de frio sonhava com a outra.

Era louca e vivia bem,
Era a louca.


Nas noites de lua urrava de dor,
Nas trilhas escuras perdia o caminho.


Era a louca,
Era a outra.

Grota do Junco, fevereiro de 2010